Solilóquios descoladinhos de uma dona de casa pretensiosa

domingo, 17 de julho de 2016

Força de Maré

09:32 POR Ana Carolina Paiva 1 COMENTÁRIOS
Na ancestral cidade em festa
O intruso e fresco olhar
De duas crianças
Tu e eu, eu e tu

Viva e feiticeira
Luminosa cidade
O rio, cálido amante, brinca com ela

Tua mão me leva
Somos as pontes, os passeios, as catedrais
Assombrosas gárgulas!

-Vem, menina
Imergir comigo
Na vastidão do firmamento!
-E partilhar o vinho, o silêncio, o inefável
O ar, as formas, o som e o pão?

Noite lavradora
Caprichosa noite
Quente e radiosa
Implantando
Consanguíneos sonhos
Nas almas esfaimadas
De travessura e néctar
De pequenas coragens
Caminhos esteados
Em operosa palavra
Todinha ataviada
De bondades sem pudor

Contudo, vem a onda oceânica
Eclipsando a cidade
Tudo se dissipa do mapa
A pobre juventude
Fica velha e carcomida
Dançando sem parar
Com os diabólicos sapatinhos vermelhos

E brincas entre as vagas
E me amofinas
Quando viras o marujo
De doido e amaldiçoado Holandês Voador
Capturando arremedos de sereias
Que eu, boba, guardo...
Em frasquinhos de cristal

Mas se tua alegria é minha alegria
Confio, entrego e deposito
Com a fé deslavada
Daqueles que não têm avidez
De ser coisa alguma

E reinventamos ininterruptamente
A cidade devastada
Nestes anos de amor e labor
Brandindo a espada da liberdade
Espíritos livres, como as aves
Que vão e voltam
Num querer
Aberto e generoso

Diviso a onda altiva
Um escarcéu no coração 
Aclarando remotos desgostos
Que evanescem na baixa mar
Ante a figura palpável
Da criatura adorada
Continuamente rebrotando
Cá, nesta diminuta e remota ilha

Um comentário:

  1. A viagem em tom onírico, o encontro, a partilha, o usufruto da vida, leve, delicada, ímpar. Um intangível vôo de pássaro, vogando ao longe, sob um céu infinito, delineando rumos múltiplos, contraditórios, imprevisíveis... A infância perdida, mas nunca abandonada, que a cidade, as agruras da experiência e as cicatrizes impostas pelo decorrer do tempo levaram para longe... A envolvência do oceano profundo, vasto e purificador, uma esperança libertadora... Como conseguir pintar uma tela que saiba ilustrar esta mundividência intensa e agridoce, mas sempre cativante, de Ana Carolina?

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