Solilóquios descoladinhos de uma dona de casa pretensiosa

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Jornada Vertiginosa pelas Horas do Tempo

12:28 POR Carolina Rêgo Barros 3 COMENTÁRIOS
Na profunda coisa levo minhas mãos
Despejo a alma lívida e combalida
Como os elementos
Que não invocam nomes para si
E ainda assim se impõem
Rasgando os dias e as noites

Resguardo quimeras
Esquivando do açoite
Obstinado em não acabar

Corrompo as prosaicas horas
Escorrendo fleuma
Vertendo alguma cor

O mundo em trânsito
Limitado por horríveis arestas
Que esquentam aquele lodo parado

Neste lugar
O que existe é inacabado
Aos pedaços
Vivendo de assombro
E sofreguidão cravada

Derramo mais uma vez, num bailado
Sem ser só eu
Sou também o outro, em par
Infinitamente maior, impregnado

Ouso apuro delicado em tua direção
Meu conluiado, meu igual!
Me atrevo a te enxergar
E a limpar tuas alquebradas asas
Duro e seco, como eu!
Sujo e descorado, como eu!
Germinando do árido chão, como eu!
Precipitando nos corpos animados
Para fazer o amor, como eu!

A trama de nossas mãos, entretidas no salto
Salto sobre os escarpados
Pensa na profundeza das vagas
Que se abalam no inexplicável oceano

A orquestra se levanta
E levantamos com ela
Dissolvendo em som

Fé despudorada
No voo de deuses
Assentando no ar, pairando
Sobre o elevado indistinto
De só bem quer

Que estranha fé... A minha, a tua?
Despedaçando assim a argamassa
Da razão?
Subvertendo aquela inerte lógica?

Mas onde isso tudo vai parar?

domingo, 17 de julho de 2016

Força de Maré

09:32 POR Carolina Rêgo Barros 1 COMENTÁRIOS
Na ancestral cidade em festa
O intruso e fresco olhar
De duas crianças
Tu e eu, eu e tu

Viva e feiticeira
Luminosa cidade
O rio, cálido amante, brinca com ela

Tua mão me leva
Somos as pontes, os passeios, as catedrais
Assombrosas gárgulas!

-Vem, menina
Imergir comigo
Na vastidão do firmamento!
-E partilhar o vinho, o silêncio, o inefável
O ar, as formas, o som e o pão?

Noite lavradora
Caprichosa noite
Quente e radiosa
Implantando
Consanguíneos sonhos
Nas almas esfaimadas
De travessura e néctar
De pequenas coragens
Caminhos esteados
Em operosa palavra
Todinha ataviada
De bondades sem pudor

Contudo, vem a onda oceânica
Eclipsando a cidade
Tudo se dissipa do mapa
A pobre juventude
Fica velha e carcomida
Dançando sem parar
Com os diabólicos sapatinhos vermelhos

E brincas entre as vagas
E me amofinas
Quando viras o marujo
De doido e amaldiçoado Holandês Voador
Capturando arremedos de sereias
Que eu, boba, guardo...
Em frasquinhos de cristal

Mas se tua alegria é minha alegria
Confio, entrego e deposito
Com a fé deslavada
Daqueles que não têm avidez
De ser coisa alguma

E reinventamos ininterruptamente
A cidade devastada
Nestes anos de amor e labor
Brandindo a espada da liberdade
Espíritos livres, como as aves
Que vão e voltam
Num querer
Aberto e generoso

Diviso a onda altiva
Um escarcéu no coração 
Aclarando remotos desgostos
Que evanescem na baixa mar
Ante a figura palpável
Da criatura adorada
Continuamente rebrotando
Cá, nesta diminuta e remota ilha

domingo, 12 de junho de 2016

Quem tem o zap do Carlos aí? Uma crônica poema ou um poema crônica

08:43 POR Carolina Rêgo Barros 5 COMENTÁRIOS

Sempre fui conectada com Carlos, o homem que eu amei. Tudo indicava que ele não fosse ficar para semente e assim foi. Um dia Carlos entregou o boné e caminhou entre as nuvens em linha não muito reta num passo só seu, meio dançante, os braços soltos quase deslocados do corpo, as pernas ágeis de andarilho, o semblante de uma brandura presente e concreta.

E a voz era a voz da juventude, da alegria, do silêncio de bailados submersos, única capaz de elevar aquele seu vitelinho do poço escuro dos temores e angústias da meninice. Então eu voava com ele, na vastidão das esperanças e das alegrias que me fazia despontar com seu olhar-luz do sol- caleidoscópico, colorido e candente!

Senti tanta saudade daquele meu amigo, o pai dessa menina Ana Carolina que cresceu e ainda precisava ficar por aqui para continuar aprendendo sobre esse mundo de coisas concretas, pesadas, de cores desmaiadas. Um mundo com tão pouco ar!

 –Volta papai e tira meus pés delicados de dentro desta lama aqui! E fez-se um silêncio impossível de se ouvir. Nenhuma palavra, nenhum telefonema, carta, SMS, Skype, Messenger, whatsApp, nada, nada!

O coração disparou, correu por paragens inóspitas de perdição e tristeza. Gosto sem sabor, desgosto só... Se meu amigo não estava mais aqui comigo, só a dor lancinante se sentaria em seu lugar. No assento vazio, o som do mais triste adágio...

Quem agora me enlevaria e mostraria aquele mundo fechado, teso, pegajoso com sua poderosa luneta mágica de amor, esperança e graça? E forjaria o barquinho de papel velejando comigo por entre as curvas sinuosas do rio que não interrompe e segue e pulsa e se lança e vive e vive e vive! Sabendo que se aglutinará à vastidão do oceano: Meu pai, meu amor, meu querido!

Posso te sentir por entre meus finos dedos como uma canção que aprendi a tocar no meu pianinho imaginário. Como estiveste o tempo todo aqui e agora e eu não pude te ver, valoroso coração apartado de mim?

O nosso barquinho continua a correr como sempre foi e sempre será, não é? Quando fecho os olhos, a mesma voz aluada e louquinha a plantar sonhos neste teu jardim que cresce e cresce e cresce!

O som é desarmônico, as almas deste mundo correm cegas e desconjuntadas para o abismo sem dar as mãos e eu sou só o teu bichinho frágil e diminuto! Ainda assim, meu pai, como a chuva que cai e o sol que levanta e se deita, como todas as estrelas que brilham mesmo entre as nuvens e os rebentos que nascem e emitem o seu som de vida posso ouvir o som do teu silencio em minha jornada naquele barquinho que projetaste. Tua voz, teu coração batendo. Olho para o caminho. Já agora não sou só aquele pianinho triste. Sou eu, você e toda a nossa orquestra correndo pelo rio que um dia será mar.