Solilóquios descoladinhos de uma dona de casa pretensiosa

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Adormecida

12:02 POR Ana Carolina Paiva 7 COMENTÁRIOS

Sonhou que não sonhava. Que vivia de verdade.

Na sua vida de verdade, que era sonho, transcendia o banal e a insipidez cotidiana que boa parte dos que viviam e não sonhavam achavam por bem conquistar com dignas armas. Pelo menos até quando não fosse tão cômodo.

Cada sonho era monitorado por máquinas e fios. Começou a sonhar ainda criança quando todos a julgavam morta.

Entre sonhar e somente dormir ela leva o tempo de alguns suspiros, um menear com a cabeça para o lado, um flexionar de pés, o enrolar e desenrolar o corpo em posição fetal. Neste instante, disseram os cientistas, ela entra novamente num daqueles sonhos longos.


 - Ei, menina, você pode cair escadaria abaixo. Não se mova daí! A vida se corrompe, se decompõe num bolo pútrido. Antes sonhar…Bolo pútrido embrulhado em papel de presente, laço de cetim, formas lúdicas… Antes sonhar, menina. Você tem um nome? Cuidado pra não cair!


Certamente que não tinha noção, mas este seria seu sonho derradeiro e mesmo na ignorância não foi nada prudente perder tanto tempo fitando sombras e espectros que se insinuavam por trás de um véu de transparência turva sob seus olhos:

 - Não é possível! Será que estou sonhando? 

Atravessara o Rio São Francisco com aqueles pés finos que não calejavam milagrosamente. Percorrera com passos de gazela uma Bahia inteira, mas parava pra conversar, tomar um cafezinho. E neste seu passo lento e resoluto já andava pelo meio do estado de Minas Gerais e pra seu espanto de sonhadora não deparou com uma só mãe que trocara sua menina de dez anos incompletos por 2 cédulas sujas de 50 reais, nem sequer um aliciador vendera a virgindade de qualquer menina por um preço exorbitante.

Meninas de dez anos estranhamente possuíam seus dentes, suas roupas, suas almas e não eram abandonadas. Nesta sua realidade sonhada, os governos não patrocinavam a guerra e nem trocavam o dinheiro do povo por castelos, jatinhos, shopping centers, viagens pelo mundo.

Eu estava vivo e nunca tive o privilégio de dormir, mas me dava ao luxo de sonhar, pra passar o tempo. Já que cismava de sonhar acordado e de flanar sem norte, sem sul, sem leste e sem oeste, dei pra tropeçar. E um dia, tropecei num buraco aberto no limiar da Avenida Beberibe. O buraco estava ali há pelo menos 25 anos e eu sabia muito bem, ora, ora. Por descuido meu, pela falta de iluminação noturna, porque o lindo Recife mandou me chamar e não estava preparado, nem pra mim, nem pra rainha Elisabeth, nem pra velhinha, nem pro bebê no colo.


Na queda, estiquei 20 centímetros o meu osso tíbio direito que perdeu força de perna, mas adquiriu força de rio. Rio de sangue explodindo bueiros e levando o meu arremedo de corpo. A dor passou e eu urrava de excitação naquela enxurrada que não me dava tempo pra pensar ou pra sofrer. Foi quando gritei por um nome: - Virgínia!


Agora eu já me encontrava todo embaixo do Recife e bem acordado, mas sonhando ainda. Poderia ser o fundo do Atlântico, porém com vestígios rútilos das algas do Capibaribe, sob arrecifes que ainda me catapultavam à superfície.

Lembrei porque eu cheguei aqui. Foi por causa do sonho dela. Tudo o que se passou: o bueiro, as pernas quebradas, a tromba d’água do meu sangue desaguando no seu corpo de sereia inerte sob a rocha viscosa.

Eu e ela secamos na ilhota aveludada do arrecife enquanto um molhado e paciente Oceano estava prestes a nos engolir.

Pela segunda vez no dia, não senti medo ou dor. Era aquela imagem de mulher que deixou de viver e decidiu sonhar pra sempre. Não articulava palavra, mas paria sonhos por todos os orifícios de seu corpo.


Reticente, com pudor de violar a jovem sereia, toquei na ponta de seu dedo indicador da mão esquerda e ela sorriu sorriso de criança. Instantaneamente, penetrei em seu sonho e dormi pela primeira vez.


Fugíamos num fusca verde. Entrando e saindo de hotéis baratos. Correndo pela estrada de cataventos, vazia de passantes. Havia mais dois: um homem e uma mulher.

Os cataventos viraram postes muito iluminados na manhã de um sonho calmo e gentil que orquestrava com o vento marítimo beleza e felicidade. E se não me engano, tinha uma canção dos anos 1980. Era alguma coisa assim? Um piano, um coro de lá, lá, lá, algo mais forte e desesperado no final. Abobalhadamente lindo.

Reconheci o sorriso de Virgínia no corpo da menina de oito anos de idade. Sentada na areia fina e branca, ria bestialmente com um pano velho na cabeça e um pedaço de pau na mão. Flertava com o mar, os peixes, o vento embalando o seu corpo. Era só e feliz, como os elementos daquele litoral agreste. Não fazia a menor questão da presença daqueles que lhe deram de nascer e de comer por infinitos oito anos.

A solidão lhe afagava os cabelos e lhe mostrava os caminhos do amor, o silêncio lhe ensinava a correr na direção do mar, o vento, sua música, trilha para o continente perdido, do outro lado do horizonte.


Sua pureza não era de dissimular a natureza secreta e erótica que aprendera só naquele desértico mar. Rindo, balbuciando sortilégios, correndo e gritando com os braços no infinito, ela me pegava e me torcia os cabelos, beijava meus dedos. Jogou uma rede no mar, matando a minha fome. Chamou os meninos dali, que me deram de beber na quartinha. Fizemos um buraco na areia, rumo ao Japão.

No Caminho pro Japão, pediu pra eu mostrar minhas coisas de menino e eu mostrei sem pudores enquanto ela só olhava. Dei um risinho, tímido, depois riso de deboche, de fricote, pra irritar, pra ganhar dela. Foi crescendo, tomando conta de mim, aquela gargalhada convulsa não tinha mais fim no seu paroxismo desenfreado. Até que eu chegasse ao Japão!


Durou 37 minutos, conforme o relatório dos mais renomados cientistas, o último sonho da vida daquela que sonhava que vivia. Mas finalmente chegou o dia que seus olhos… se abriram para a vida. 


Sua articulação era perfeita, mas o som da voz era o eco proveniente de uma caverna perdida, jamais vista pela civilização:  - Vão buscá-lo sob as águas quentes e doces lá de cima! Não o deixem sonhar demais. Assim ele se acostuma. Por favor, digam que eu estou esperando por todos estes anos em que não vivi!



7 comentários:

  1. Sonha menina, sonha. Eu costumo sonhar pouco dormindo, mas acordando sou só um só sonho. A vida é sonho só, como bem inventou o poeta Calderón de la Barca e tem o Grande Teatro do Mundo, que inventou o mesmo, que me corta, mas do que estou eu falando? Eu gosto das pessoas que querem dizer alguma coisa de dentro para fora. Tem muita gente que só diz de fora, isso aqui é de dentro, do fundo, refinadamente um belo sonho profundo. Há, na vida, uma infinidade de tipos de gente, uns são turvos e quando olhamos parecem até profundos, outros são límpidos e profundos, eu prefiro os turvo e profundos, gosto daquilo que é mistério. "Sei lá o que mistério!" E Virginia não será o nome de sua filha ou de uma filha que virá e mesmo se não vier será Virginia no seu sonho? Virginia é o seu sonho. Fusca verde é seu sonho. Buraco pro Japão é o sonho de todos. O homem para se esconder de si mesmo fez um buraco no céu. Qualquer coisa abstrata que passa pela cabeça, Eu para me esconder de Deus faço um buraco na terra. Quando escrevo gosto de ser fluxo... penso e escrevo com a rapidez que permite a agulha do meu disco rígido. Rígido é uma boa palavra. São boas palvras minha cara, são bonhos sonhos. A vida é agora.

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  2. Uau maravilhosamente idiossincrático amiga. Adorei! Você está-como sempre- de parabéns!
    Sucesso sempre. Beijos...

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  3. Eu sonho diariamente, dormindo e acordada.
    Muitas vezes, são sonhos inacreditáveis,
    tanto os sonhos dos sonhos, como os sonhos
    de verdade, a serem vividos... O importante, é
    sonhar, seja de que forma for...(com um pezinho no chão).

    Parabéns à Bela Adormecida!

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  4. Levados pelas asas generosas de Ana Carolina, vogamos por entre cenários terrenos que tão bem conhecemos e amamos para dimensões oníricas cada vez mais desenvoltas e densas, sempre tentando incorporar o fio ténue da sua sensibilidade tão insondavelmente feminina...
    Ficamos felizes por podermos partilhar o vigor enleante e sentido do seu imaginário mais íntimo. E seguimos, embevecidos e gratos, para onde quer que a sua "anima", primeva e original, nos queira encaminhar...

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  5. Muito bom Ana. Sensibilidade e precisão. Texto prazeroso.
    Beijo

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  6. Quem desprevinido vê Ana Carolinda desfilar por aí entre largos sorrisos e tropeços charmosos...perde a oportunidade de brindar com ela a sua sensibilidade ímpar. Fui agracida com esta nova amizade que resolveu bailar no cerrado.
    Mereço um café com você, vários cafés aliás...
    com a esperança sincera de que consumamos juntas várias colheitas de cafés entre com-partilhamentos de tropeços e sonhos. Ana Carolinda humana demasiada humana. Admiro-te! Ps: Amei o conto.

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  7. Fico feliz pelo convite de passear nessa torrente de sonhos, lembranças e desejos! Agradeço por dividir esta delicadeza!Beijo! Aramís

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