Solilóquios descoladinhos de uma dona de casa pretensiosa

sábado, 13 de agosto de 2011

Último Presságio

10:42 POR Ana Carolina Paiva 5 COMENTÁRIOS
A vida? O que é isto que dizem, que falam, que pensam? Recebeste? Me deram uma também.

Acho que a minha é boa. Quer trocar? 


Ah, não dá, é coisa de inventário.


Uso fruto com data de validade.


Um homem saiu daqui correndo. Correu, correu, correu. Para onde? Pressinto que não tinha rumo. Só para não ficar parado.
Escrevo para torná-la minha, tirá-la um pouquinho de Deus. Ele já tem tanta! Eu e meu vizinho temos pouquinha, mas aposto que Maria tem mais. Ela não sabe, mas eu guardei pra ela o sorriso de covinhas. Vai que um dia ela precisa de novo. 
Ouço a música que o atleta deixou comigo, ele me mostrou o caminho das pedras e disse: - Agora você se vira! Me viro para o lado direito e me vem o Leste, sigo por ali, esperando o primeiro susto. Acordo com um Oeste nunca visto. Nem mesmo quando antes era dantes.

Eu que percorrera o mundo quando só sonhava. E achava bom. Agora, em estado de vigília, que medo que dá! Do figurino não servir, do batom ficar vermelho demais, o rosto pálido, a pele macilenta...
Guardei o sorriso dela junto ao meu senhor, que me bate e me beija todas as noites. Que me governa e não me deixa viver no nada de todas as coisas. E quando bate em mim eu fico viva. Estrangeira, mas viva! E finalizo o espetáculo com um sorriso quase sincero de felicidade. 
O atleta havia chegado muito próximo daquele meu senhor que governa todas as coisas. Chegou manso, tocando a minha mão. As dele eram macias... Fugiu feito pássaro agreste diante da súbita materialização daquele que me governa e não me deixa viver no nada de todas as coisas. Meu Zeus aterrador, cuja presença transformou em cinzas a mulher amada.
Só pode ter sido o menino de chupetas, o que me trouxe ontem até aqui: desligou o meu interruptor de convenções. De certo trocaram pela boa e velha caixa de Pandora. Lá dentro, o mal belo. E necessário? 
Escalei montanhas, escarafunchei os corações, descobri verdadeiras obras de arte, me enrosquei sem medo no abjeto corpo nu da serpente dourada, solfejei a canção dos deuses, sorvi mel batizado por ninfa. Sem autorização, emprestei o sorriso de Maria a uma azul pálido mocinha do mel, de existência de borboleta. E me deixei levar pelo mar revolto de uma Atena furiosa com olhos vermelhos de vingança! Já não era sem tempo, quando segurei com mão de cirurgião a chaga aberta e putrefata de Prometeu amarrado à montanha.
Por assim dizer, me apercebi da beleza da maldade. Descobri, enfim, as razões de Maria em mudar de pele. Lamentei o cansaço do atleta quase na linha de uma chegada triunfal.
Então ele despertaria como eu? Do torpor sonolento dos sentidos pestilentos? Chegaria vivo e morto na linha de chegada? Como eu chego naquelas manhãs de ontem, duras e firmes como rochas? Também devo eu correr para o nada de todas as coisas?

Chorei, chorei, ao ponto de desenvolver certa ternura por minha última lágrima: - Ora, não me deixe ser uma estátua de sal, pequena lágrima! Faça de meus olhos cansados e secos um lago negro, profundo e licoroso, entre turvo e cristalino, para que eu só possa ver o horizonte quando tiver bom tempo. 
Percorri, sem sangue e sem ossos, entre exausta e embrutecida, todas as feiras que pude encontrar. Já com um fio de alma, provei uma a uma, de todas as beberagens que apaziguam a dor. Mefistófeles quis fazer pacto comigo, como era de se esperar, prometendo vida de carcaça rica, alegre e formosa. Recusei no ato. Vieram alguns santos pós modernos, de terno, gravata e livro preto debaixo do braço. Redenção no céu? Agradecida. Ai, se eu quisesse o céu! O estático e insosso céu...

Relutante, tomei o caminho sem volta dos meninos, dos velhos e dos prestidigitadores de rua, na cor vibrante e maníaca de Brueghel, o velho: - Também quero me perder no bosque denso e brumoso com todos aqueles seres pagãos, tropeçando no olhar descarado de Dioniso!
Suspiro. Tenho todo o amor e já não tenho nenhum amor, pois está guardado. Procura-se: queda d’água caudalosa, viajando em direção ao descomunal Oceano multiplicador de todas as lágrimas perdidas no tempo. 
Não me lavei mais e deixei o amor parado, salpicado de limo, guardado. Guardado... E com aquela mesma voz cansada e embotada, sussurrou, como se não fosse comigo: -  O futuro vem, vem e vem... ainda que ela esteja vestida de medo.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Desesperança

17:05 POR Ana Carolina Paiva 5 COMENTÁRIOS
O remédio fora empurrado goela abaixo. E não prometia cura, tampouco minimizava a dor. Havia de me arrancar nos primeiros trinta segundos do mundo particular onde reina aflita a minha indiferença. Lá onde contabilizei um montão de alegrias com tristezas fundamentadas, desesperos regrados, fatalidades sentidas, espiadas, depositadas em porvir.

Me acostumei a receber convite do sol para um suspiro de olhos fechados. E quando um alísio bate com ternura nos cabelos, tudo vira uma sucessão de sorvetes, de lambidas bestas de cão, riso frouxo, diamantes de orvalho urdidos em manhãs intocadas e a promessa de cheiro bom com canção que chora a gente. É quando uma esperança verde, magra e de olhos descomunais pousa no dedão do pé. Quando acontece, eu fico imóvel. O coração bate forte, seguro a respiração para não perdê-la, não apartá-la de mim nunca, nunca!

Reviravolta no tempo. Pé de vendaval. Quando entrevimos, uma espécie de máquina enfurecida já havia anunciado sua forma funesta. Não houve tempo para fechar todas as portas, nem para tecer o amanhã.

Do rosto exangue de cera, foi arrancado o sorriso da menina. Nunca mais a boneca abandonada no canto, o vestido curto naquele corpo desastrosamente indefinido e belo. Um devir mulher devorando saborosamente a meninice dela.

Foi quando pairou silêncio e perplexidade. Os gritos estacaram no ar. Um terral quente com cheiro de morte suspendeu os meus sentidos logo embotados. Me aproximei da bonequinha descorada e pensei ter visto os seus cabelos virarem um fogo a saltar numa cadência frenética e exasperada.

Quis fugir, quando caiu de meus olhos a máscara de Apolo. Pequenas vidas eram imoladas em nome do desespero do nada, da tristeza sem fim do vazio. Não acordei porque não era sonho.

- Moça! Aqui! Me deixa tocar na sua carne viva!

Numa respiração sofrível e apavorada, respondi baixinho prendendo um choro convulso:


- Se minha vida fosse um rabo de lagartixa, eu dava pra você um pedacinho, menina! Só um pedacinho bastava!

Mas havia outros lá, outros pequenos inacabados, de cabelos de fogo e pele desbotada.

- Dá rabo de lagartixa pra mim também, moça!

- Pra mim!

- Pra mim!

- Dizem que a gente morreu de morte matada!

Ainda tinham cheiro de leite de mãe. E já não viviam mais.