Solilóquios descoladinhos de uma dona de casa pretensiosa

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

O Retorno

13:56 POR Carolina Rêgo Barros 6 COMENTÁRIOS
Primeiro vendeu a mulher que era jeitosa e boa cozinheira.

Foi a mais difícil de vender, já que era tão boa cozinheira e dobrava a roupa dele como ela só. E cuidava dos afazeres da casa. Era submissa e limpa. Só mulher limpa servia para a lambança toda que ele fazia na cama, na mesa, em frente à televisão.

Depois foi fácil vender as duas filhas já moças a um especulador que colecionava virgens. Enfim, vendeu o menino, que nasceu mulato como a mãe, para um casal dinamarquês que se convertera ao cristianismo neopentecostal após uma overdose de drogas. “In Jesus we trust”.

Transcorrido o susto, passada a epifania da Virgem Maria em baixo da ponte sob o lago gelado, os gringos acharam prudente fazer o bem sem olhar a quem. E levaram o mulatinho assustado com eles para bem longe do pai, que pegou o cheque e entregou o menino nu e remelento.

Fernando Alex dos Santos Souza era a própria maldade encarnada. Traçou seu destino de matador aos cinco anos de idade no dia em que pegou um sapo em suas mãos, olhou fixamente para o animal e com precisão cirúrgica, lhe arrancou delicadamente os dois olhos com a tampinha de coca-cola encontrada no chão, deixada por um cúmplice incidental.

Em menos de meia hora o anfíbio indefeso, quase exangue, parara de agonizar e aceitara a morte enfim, levada até ele por meio de dois buracos sem olhos que gotejavam um sangue ralo e frio.

O primeiro impulso de matar se dera às onze horas e cinco minutos do dia doze de um janeiro quente do ano de 1974 numa favela do Rio de Janeiro para onde Fernando Alex migrara com o pai, a mãe, sete irmãos e a avó tísica.

Na vinda para o Rio, nos cafundó da Bahia, Severina, a avó, delirava com o febrão e gritava feito mulher prestes a desprenhar.

Trataram de amarrá-la ao pau de arara que chacoalhava na estrada. Taparam sua boca. Ao seu lado, um bode que era só pele e osso e um cachorro doido. Dizem na família que o tal cão raivoso também foi comido na hora que a fome bateu desalmadamente pela segunda vez.

Já era Minas Gerais quando a anciã de quarenta e sete anos foi encontrada sem vida com o pescoço pendendo para o lado. Umas órbitas profundas e descarnadas de morta enterrada há pelo menos sete dias. Um rosto tão enrugado que parecia virado pelo avesso.

Ainda era Minas Gerais quando Fernando Alex viu o pai arremessar a própria mãe no meio da estrada. A cabeça da velha rolando, acabou presa na roda do carrão importado do pagodeiro que passou como um foguete do lado da camioneta que arrastava duas famílias para o Rio de Janeiro e três para São Paulo.

Quarenta anos após o episódio macabro, na frente do espelho, a pele de Fernando era viscosa e dura como uma máscara de borracha. Os olhos piscavam sobre umas pupilas negras, estáticas e brilhantes que não fitavam nada.

Era setembro quando notou certa manhã o nariz borrachudo descamando. Com unhas impecavelmente limpas e cortadas, arrancou a pela fina do nariz sem dar a menor importância ao fato.

Aos quarenta e dois anos e três dias ele era um homem bem sucedido. Possuía belas mulheres. Era um tipo atlético, viril, rico e contabilizava mais de cinquenta mortes nas costas. Mas vez por outra, lembrava da avozinha tísica.

- A cabeça da velha rolou e ficou presa na roda! - Disse soltando uma gargalhada seca e sacudindo o relógio de ouro, enquanto a garota de programa, entretida com a atividade abaixo da cintura de Fernando, engasgou.

A moça trabalhadeira não dava conta de continuar o digno serviço. Não tanto pela notícia da morte da avó do cliente, alardeada com tamanha animação pelo próprio. Era o gosto ácido que começou a sentir na língua: - Você tem as mãos e os pés gelados, Fernandinho!

Ele, que havia sido forjado sem amor, só atinava para o que não lhe prestava mais. E neste momento a língua dela já não prestava pra nada. E como falava sem parar! Já que ele não sentia, por que ela haveria de sentir? Assim, sem cerimônia, o desalmado cortou a língua de Stefany, que saiu desembestada pelos corredores. Como não podia gritar, corria. Há testemunhas de que a pobre perambula nua por recantos inóspitos da cidade.

Numa quarta-feira de outubro, véspera de uma chacina orquestrada na Comunidade do Muquiço, o bandoleiro abriu os olhos embaçados. Sentia-se pesado e cambaleante. Tudo era turvo ao mirar de sua cobertura duplex para o calçadão da Vieira Souto. Tropeçou no criado mudo, soltando um grito aflito de dor: Urebe! Urebe!

- Meu Deus, o que é isso?! - Clamou a besta fera. Só pode ser um sonho! E praguejava: -Resolveram se vingar agora? Não têm mais o que fazer? Já não despachei vocês para o inferno?

Fernando Alex decidiu se arrastar até o banheirão todo no mármore de Carrara pago com o sangue dos inocentes que agora tinham fome de vingança. Impossibilitado de se pôr em pé, pulou até à pia e agarrou-se ao mármore com as ventosas surgidas nas pontas das falangetas. Com suas patas repugnantes tocou a pele escamosa, a papada gorda e acinzentada, os olhos enormes, esbugalhados, de um estrabismo divergente. Urebe! Urebe! Fernando Alex coaxava.

O pesadelo não queria mais acabar: - Meu Deus, no que me transformaste! Por que não me mataste? Eu me entrego! Eu vou até à polícia e confesso todos os meus pecados. Mando sustar o cheque de todos eles! Faço tudo o que queiras, ó pai eterno!

Qual o quê! Fernando Alex, aquele mesmo que havia travado o seu destino como o mais cruel dos matadores, implorava agora como uma criança indefesa pelo perdão de Deus ao se ver metamorfoseado num abjeto sapo cururu de 1.80 m de altura.

Saiu pelas ruas trocando as pernas, ou melhor, as patas. Não via ninguém. O deus da maldade era só uma réplica patética de um carro alegórico do terceiro grupo das escolas de samba do Rio de Janeiro.

O céu desabou a chover tão forte, arrastando árvores, prédios, pessoas e sapos gigantes. Fernando Alex, quase atropelado por um caminhão da comlurb, por uma espécie de milagre começou a encolher, escondendo-se dentro de um bueiro. Era chuva de verão com arco-íris e pessoas bestas e felizes apontando para o céu.

Uma bola cor-de-rosa rolou. Ouviram-se passos de criança correndo: - Vem pra cá menino, tem bicho nesse lugar!

- Não vejo nada aqui mãe! - disse Rafinha, um menino de cabelo louro encaracolado, um autêntico anjo caído, gordinho e de olhos azuis.

O menino sorriu, mostrando os dentes e as pupilas negras e gigantes que não fitavam nada.

- Não tem nada aqui, mãe, nadinha de nada! Disse o anjinho de cinco anos de idade segurando uma tampinha de coca-cola na mão. Nada, nada, que coisa mais chata!

Com olhos vidrados de não enxergar, Fernando Alex lembrou-se da única lição que aprendera na escola pelas mãos da linda professora que usava saia de normalista e era dona de uma caligrafia perfeita.

Amphibia: significado de vida dupla.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

A Caça

16:50 POR Carolina Rêgo Barros 5 COMENTÁRIOS
Os treze anos incompletos desafiavam aquela organização interna que havia conquistado desde as 11 horas de uma quarta-feira meio pálida quando, sem saber por que, adquiriu o estatuto de criatura viva.

Teresa costumava se esconder nuns cabelos desgrenhados que emolduravam uma cabeça sem aprumo algum. Era o pescoço fino que mal se sustentava e pendia feito pescoço de galinha quase degolada.

Por vontade própria se absteve de olhar para frente ou para os lados de tal modo, que deu pra colecionar os restos que habitavam seu restrito campo de visão: de tampinha de garrafa a cédulas do mais alto valor, de botão de blusa a carretel sem linha, de casca de banana podre a relicário de prata cravado de diamante.

Quando era noite alta e podia abrir os olhos sem que pudessem lhe mirar, tocava o próprio corpo com mãos de dedos ágeis que fotografavam memórias de contornos, saliências e reentrâncias que escapavam aos olhos na luz do dia. Assim notou uns arremedos de peito que pareciam estar ali há algum tempo. Ambos espevitados, um mais apressadinho que o outro. Era só o que faltava! Peitos, ancas, um corpo sinuoso de mulher estavam a afrontá-la, a debochar de si, a lhe tirar o sossego.

O antigo corpo fugia de Teresa como o diabo da cruz e algo novo e exuberante lhe assumia o lugar, rescindindo o contrato instituído: o de que em breve o ar lhe faltaria sem qualquer revolta ou ressentimento, como se faltasse água depois de saciada toda a sede. Mesmo assim adormeceu e pela primeira vez sonhou que sonhava.

O sol penetrou com força os olhos que já não eram mais seus, eram dois faróis reluzentes. Levantou-se tropeçando em estilhaços de infância abandonados pelo chão e viu no espelho o descolar da antiga carapaça da face seca e torta de uma meninice entre morta e aprisionada.

O mundo, outrora insípido e diáfano, passou a ser observado com uns olhos vorazes de predação:

- Correu para tomá-lo, todo. Ruas, avenidas, carros, postes, letreiros, a cor da manga fruta, da manga da blusa, o sapato envernizado, a ponte suspensa sobre o reluzente oceano e sob o mesmo, os peixes, os corpos afogados, os meninos nadando nus. A casa, a porta, o andaime, o bailado de indivíduos andando a esmo, outros com objetivos despropositados. Pessoas, pessoas, pessoas... Foi quando a viu e logo percebeu que tudo o que era beleza e doçura havia sido sugado para dentro dela e mesmo a graça do mundo agora servia exclusivamente de moldura para o sorriso dela, o sorriso que iluminava todos os caminhos. Não lhe foi suficiente olhar, queria bulir como criança que não admite simplesmente contemplar um brinquedo.

Realizou todas as mesuras que conhecia para agradar a desconhecida: cantou, dançou, desempenhou um número de acrobacia na lira e outro no trapézio, confeccionou presentes e manjares, adornou os cabelos da outra, sorriu o seu sorriso mais encantador. Entretanto, nada do que fez pareceu suficiente para enternecer o coração da estranha criatura adorada:

- Já tenho uma menina só minha e não preciso de outra.

- Não sou uma menina qualquer. Estive morta até ontem à noite e neste momento estou aqui falando, andando, pensando. Coisa que se faz quando se está bem vivo. Nunca precisei de uma como você. Sozinha, bastava-me. Hoje preciso de você como do ar. Até ontem à noite, passava muito bem sem nenhum dos dois.

- Não pense que consegue uma mãe a esta altura. Já é muito crescida. Porque não tem sua própria vida? Já não está na idade de se casar? O que eu poderia fazer por você agora?

Teresa já não ouvia coisa alguma do que a desconhecida pronunciava. Parecia completamente magnetizada. Sua visão se tornou turva e as pupilas dilatadas. Um olhar estático de gato diante de passarinho caído do ninho.

- Que cheiro bom! Disse já com ar de senhorita segura de si: -Sabia que este cheiro existia, pois sempre esteve na minha cabeça. Só não sabia de onde era. Era seu! Seu! Seu!

A púbere senhorinha estava convencida de que dali não sairia sem levar a outra consigo. Após soltar uma alegre gargalhada, passou a sustentar um tom de voz fleumático, acompanhado de gestos hieráticos que induziram suas mãos à pequena mochila em formato de urso atrás das costas, de onde sacou uma arma de fogo:

- Me leve pra sua casa e pra sua vida como se eu tivesse nascido de você. Quero também um nome, um sobrenome e um caminho que eu possa percorrer. Por favor, não me obrigue a usar isso!

terça-feira, 16 de março de 2010

Tarde Suspensa

10:57 POR Carolina Rêgo Barros 3 COMENTÁRIOS
Mais um dia. Fez questão de arear de modo impecável o fogão e as panelas. O ladrilho brilhava e exalava um odor forte de pinho sol e creolina. Lavou, passou, engomou. Esperou a hora. Requentou o café, esperou. Quiçá a chegada de uma nova hora traga consigo um inesperado alento. Algo vibrante, novo, uma visita que aceite dividir a xícara e o seu conteúdo.

Lentamente despencaram pingos de um suor salgado e denso de dever cumprido, rolando por seus lábios, queixo, pescoço, peitos. Levantou a barra da saia pra enxugar. Não usava nada por baixo. O calor da casa e do café era acompanhado por um silêncio que excitava seus sentidos. E se alguém escondido num canto secreto da casa visse sua nudez debaixo da saia? Sorriu com volúpia, convencida de que seu corpo era belo e de que era admirado. Por quem? Se a casa estava vazia há anos, emendados em séculos.

No instante seguinte foi possuída por um arrepio de cima abaixo, acompanhado de um desejo despropositado de mergulhar no vazio. Leveza em seu corpo e em seu pensamento. Claridade cega coloriu sua visão já turva, mergulhada em passado e devir. Um caleidoscópio de lembranças distorcidas.
A hora passou, passou. No entanto era ainda tarde alta. Na sua frente um duplo de si mesma: lavada, vestida, penteada, marmórea. Conduzindo uma tarde que não finda e não se rende à noite, pendurada no vácuo. Tarde brumosa de sonho. Então chegara o momento? Vieram buscá-la?

_ Estava certa que você entrava. Ainda que as portas estivessem cerradas e as janelas gradeadas. Escondeu-se e me esperou numa casa sem sótão, sem paredes falsas, sem passagens secretas. Imaginava que fosse homem. Gosto mais de homem. E da aventura de ser levada daqui para sempre. Por que se parece tanto comigo?

Passados eternos segundos de pausa silenciosa, o tal duplo lhe disse enfim alguma coisa numa suavidade antinatural:

_ Vai assim mesmo?
_ Vou.
_ Não tem medo?
_ Jamais.

A visita derradeira se espelhava à sua frente e fazia questão de afirmar sua presença. Consigo as magias e os truques que garantiriam uma digna epifania para a escolhida do dia. Seguindo à risca a cartilha de boa entidade fantasmagórica, procurava evitar conversinhas e explicações, mantendo um ar solene. Sacou do espaço um dossiê com informações sobre a vida da futura candidata. Tratava-se de um pequeno retângulo que mostrava cenas da vida pregressa da candidata a morta. Avisou com pausas e um tom monocórdio de telefonista que a sessão de cinema era mera formalidade e que a outra tinha todo o direito de contestar as informações apresentadas. E neste caso seria constituída uma banca com os melhores advogados, investigadores, promotores e juízes no intuito de solucionar definitivamente a questão.

_ Acabou? É só isso? Depois de todos estes séculos? Volta um pouco, pára aí, aí. Foram levando tudo, pouco a pouco. Nada construído, tudo por fazer. Penso que vivi um sonho da janela.

O tal videozinho em seguida mostrava milimetricamente cada lance de sua vida, desde o primeiro grito já fora do corpo da mãe. Uma sucessão de equívocos.

Atinou que se tivesse implicado menos com os domingos, tudo teria sido diferente. Teria tido um tempão extra. Lamentou por quase tudo, o palavrão não dito na hora certa: tantos caralhos e porras desperdiçados se fossem aplicados naquela determinada ocasião, santo Deus! Tantas vezes teve a cara de pau de botar a sacola em cima do banco vazio: no metrô, no ônibus, na sala de espera. Fora legitimamente amaldiçoada por aquela constelação de velhinhas, barrigudas, até ceguinhos que ficaram em pé enquanto o pacote descansava.

Ela lamentou ter vivido tanto, lamentou até mesmo nunca ter envelhecido. Por que a esqueceram no mundo? Ainda assim quis ganhar tempo, ficar um pouco mais, consertar alguma coisa:

_ Sabe que eu passei de manhã na vendedora de jornais? Tinha as unhas recentemente pintadas de vermelho e não conseguia tirar da cesta o pacote de figurinha autocolante que eu pedira para o menino da vizinha. Disse que ia a um enterro.

Aquilo não fazia sentido, mas precisava ganhar tempo e ia dizendo o que vinha na mente, tentando conquistar a simpatia, um singelo sorriso de piedade ou simplesmente irritar a tal entidade que tinha a desfaçatez de ter a sua cara.

Foi quando notou que o estranho aparelho trazido do espaço pela despachante do outro mundo exibia imagens que não eram da sua vida. Estaria avariado? Eram mortos ilustres, íntimos dela. Com quem ela urdia estreita relação, já que eram consideravelmente mais interessantes que aquele bando monótono de vivos. Mortos que cantavam para sempre com seus agudos, graves, sopranos, contraltos, cheios de frescor. Outros liam em voz alta os seus mais célebres poemas, tocavam plangentes instrumentos musicais. Galãs de cinema que continuamente corriam para os seus braços. Pintores que habitavam suas próprias paisagens pictóricas, para sempre afogados em rios de giz pastel, a se refrescarem em densos bosques de tinta a óleo, fazendo amor para todo o sempre com suas amantes. Como estavam protegidos das 24 horas do cotidiano, do trabalho, do ônibus lotado, da educação dos filhos, do angustiante espaço entre os beijos de amor ardentes!

A despachante estagiária não tinha muito tempo para chororô, arrependimentos e tampouco elucubrações existenciais. Precisava mostrar serviço e ser promovida de posto. Entretanto, justamente por ser nova no ramo acabou por se compadecer da candidata:

_ Você tem a oportunidade de escolher o nada. O nada dos ateus, dos cientistas, dos céticos de carteirinha. Quer? Sem lembranças? Sem pensamento? Sem Jesus Cristo, São Pedro, os anjinhos, o seu pessoal todo? Tem gente que passa uma temporada no inferno por isso. Não é pra todo mundo não. Mas estou vendo que você é gente boa e o seu caso não é tão grave. Oportunidade única, heim? Um nadinha sem passagem pelo inferno!

A iminente falecida disse que ficara tentada e agradecida com a proposta. Mas se recusou, alegando que não seria justo consigo e com os outros. Queria estar lúcida e seu desejo era voltar e fazer tudo de novo. Algo como reencarnação ou coisa que o valha.

_ Sou importante, não sou? Não fui criada à imagem e semelhança de Deus Pai? Posso ser o que quiser. Não sou um mamífero irracional, um inseto, uma bactéria, um vírus, uma célula cancerígena. Sou temente a Deus, lavo, passo, faço exercícios. Canto, choro, até sorrio de vez em quando. Como nenhum bicho jamais fará. Leio a bíblia, pago as minhas contas. Poderia ter tido e criado filhos. Sempre fui monogâmica, tomo banho, não ando despida pela rua, sou...

Num centésimo de segundo suas pálpebras piscaram com força descomunal e se colaram uma à outra ao som da mais alta e dissonante vibração. Sequer o prenúncio das Quatro Estações. O último espasmo, o derradeiro suspiro. Nenhum lamento ou temor acompanhou a cerração que súbito lhe tomou inteiramente, trazendo consigo um sepulcral silêncio.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

A Sacoleira

16:39 POR Carolina Rêgo Barros 1 COMENTÁRIOS
Quando trouxeram a menina embrulhada na manta, o simplório pai desejou para ela quase tudo o que havia desejado para os que nasceram homens. Que ela se casasse, que tivesse filhos, que deixasse tudo na mais perfeita ordem. Esqueceu-se de desejar que vivesse. Possivelmente não agiu de caso pensado, fora só esquecimento.
Mas isso não seria essencialmente um problema, já que sua permanência no mundo ia seguindo seu rumo de modo sólido, prático e sem grandes percalços.
Era toda ela Bonsucesso, no máximo deixava-se arrastar até Ramos e com certa boa vontade do destino, perdia-se por ramificações geográficas que desaguavam nalgum logradouro margeado pelo caminho ferroviário da Leopoldina. Não a alegria e a brejeirice suburbana, não a visita ao mercadinho de flores na Praça das Nações, não o armazém antigo em sua excêntrica e abusada penúria no caminho para a Ilha do Governador, não os meninos no chão com a bola e nos telhados com a pipa, não o casario assobradado de velhas mangueiras abandonadas, morcegos e pouca luz mesmo, não o passeio pelo comércio local com seus artigos ordinariamente convidativos: calcinhas, sutians, top, short de lycra, stresh, vestidinhos floridos, toalha de mesa, toalha de banho, pano de prato, capa de fogão, capa de almofada, enxoval de bebê.
Disto ela passava longe. Desprovida que era de afetos, de verdadeira coragem, de qualquer vontade ou simples alegria. Todavia, impregnou-se do bairro, entranhou-se nas paredes de suas casas, no vício de seus caminhos, na decrepitude de suas vidas.
O marido e os filhos ela os enfeitava e expunha aos domingos, em casamentos e enterros, mas era das entranhas do bairro que ela se alimentava, crescia e avantajava-se, compactando-se. Era surpreendentemente gorda e quadrada, com os quatros ângulos de noventa graus muito bem demarcados.
Numa tarde quente e úmida, a sacoleira deu com ela pela primeira vez. Não pensou que fosse tão dura, nunca tinha visto gente assim. Uma dureza de defunto.
Vendia montes de um pouco de tudo dentro do sacolão. Vivia até com certa dignidade do ofício de sacoleira. A economia de seu negócio era aquecida com as promoções que criava a todo momento: amostra grátis, empréstimo por tempo indeterminado, promoções relâmpago, leve dois pague um, leve cinco pague três. E se soubesse pechinchar, o cliente levava os artigos esquecidos no fundo da sacola pela metade do preço.
Diante da magnífica fragilidade da vendedora de artigos tão supérfluos, aquela mulher avantajada e quadrada, desconsertava-se:
– Isto não serve para nada minha filha, ninguém se interessa. E gritava como se todos ao seu redor fossem surdos.
A sacoleira ficava cada vez mais assustadoramente frágil em sua insistência flexível de bambu, dobrando e voltando, uma debilidade soberba de flor fresca e orvalhada. A outra cada vez mais dura, pesada e quadrada: – Que serventia tem este tipo de coisa? Não se faz nada concreto com isso minha filha!
A abrutalhada fêmea tomava conta de todo o espaço como um trator e a outra, que quase não tinha voz, ocupava o mais parco espaço do ambiente. Era a própria altivez. Suave, cínica e dona de notável insistência descarada:
_ Leve este pequenino, só para experimentar.
_ Este pequenino não me tem serventia.
_ E este um pouco maior, tem uma cor vibrante. Combina com seus olhos.
Insistia tanto que fora capaz de desequilibrar a inepta e inútil existência da outra. Implacável, segurando a respiração, virou de uma vez para o chão o gigantesco sacolão e de lá foram saindo os mais variados artigos. Festa para os olhos de qualquer cristão, cristão novo, evangélico, muçulmano ou macumbeiro: um traje de odalisca cravejado de diamantes, um Clark Gable sem cigarro e sem bigode, iguarias preparadas, como de praxe, pelos deuses, massagens eróticas em mãos firmes de negões do Senegal, outras coisas firmes de negões do Senegal.
A vendedora mais parecia uma sádica. E tem mais. Olha aqui: este casal de grilos nunca falou, mas cantam afinado que é uma beleza, lêem partitura, tocam oboé. Vê o caminho abobadado para os Jardins do Éden? Ou prefere estas esculturas em ouro de Fídias, desencontradas pelos arqueólogos? Neste potinho mínimo, a fórmula da juventude eterna. Uma tragédia grega encenada pelos deuses do Olimpo? Perdoe a indiscrição: o que diria da Vênus de Boticelli em sua cama? Hoje em dia neste negócio é preciso ser moderno, não é? Riu marota, a fresca flor do campo.
A outra não ouviu a gracinha. Estava hipnotizada.
_ Quero aquilo ali! Fingiu que não sabia, mas já tinha certeza do conteúdo da embalagem. Ela era quase doce.
_ Aquilo? Aquilo ali no cantinho?
_ É, aquilo. Pago o preço que quiser.
A sacoleira disfarçava, avexada. Enquanto a parva, vidrada no pacote, arredondou-se. Quase não se via sua imortalidade de pedra.
_ E esta réplica de Paris? Não dura a vida toda, mas tem garantia! Pode até trocar por três semanas de Veneza. Com gôndola e um gondoleiro viril.
_ Não quero. Prefiro aquele outro.
Sua insistência ressaltou na outra a latente maldade. Um sorriso de manequim brotou de uns olhos pequenos, redondos e brilhantes de afilhadinha de Lúcifer.
_ Ah, esse não vai dá mesmo. Hum-hum. Não lhe serve. Não combina.
_ Eu quero Copacabana! Eu quero! Quero todinha, quero tudo que tem lá, quero o mar e o horizonte.
_ Já é tarde Copacabana pra você. Agora não dá mais, o tempo passou. Só isso. Você não vai pegar a coisa, entende...
A outra que não era de questionar, súbito conformou-se. O espetáculo desarrazoado cessou.
_ É, né?
E fechou-se novamente em sua rigidez quadrada, insípida, imortal, sem horizontes e sem saudades de Copacabana.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Arábica Típica

06:39 POR Carolina Rêgo Barros 2 COMENTÁRIOS
Nunca entendi nada deste negócio de café, nem mesmo demonstrei interesse. Até que um dia desses Maria me falou que o adorável casal de franceses havia embirrado com uma certa categoria: “Este tem muita cafeína, é menos aromático, não é arábica, só pode ser robusta...” E eu fiquei com aquilo guardado numa gavetinha acanhada lá embaixo daquela pilha de coisas que eu costumo guardar em mim desde que comecei com este negócio de pensar seriamente nas coisas.
Ontem, me arrumando para o carnaval, antes de enfrentar sozinha o metrô, os mascarados, a folia e o sol a pino, liguei a tv com aquela vontade habitual de ser simples e feliz. E em comum acordo comigo mesma entendi que enfrentar o carnaval de rua logo pela manhã seria um bom começo.
Deparei-me com um alegre repórter que mostrava para o Brasil o cultivo do arábica típica em Taquaritinga do Norte. Aquele nome imediatamente me remeteu à gavetinha lá de baixo. Tenho cisma com palavras: arábica, que nome tão colorido, mandão, decidido. É nome de café, é? É, disse o sorridente moço ao som de um frevo de bloco. Aquele mesmo que eu vivo cantarolando.
O que era só um nome consubstanciou-se em canção, espaço geográfico, cheiro de descoberta. Foi quando o odor concreto do café que eu passara, impregnou-se em mim como um beijo, um carinho ou mesmo uma carícia, fazendo-me acreditar por um infinito instante que não havia sido eu mesma a passar o café, mas outra pessoa, alguém que me dedicava no mínimo simpatia e, na melhor das hipóteses, amor.
Fui tomada de corpo e alma por um grande ufanismo, um regozijo de ter nascido e de viver no Brasil, o maior produtor do melhor café do mundo inteirinho. No meu êxtase privado, um pouco antes de colocar o véu de espanhola com o trocito arriba e não tomar a minha xícara sagrada de café, pois já nem precisava, lembrei do meu primeiro contato com esta bebida que me cerca de mistérios. E como sou dada a despertar em mim mesma esta sensação!
Minha memória, intacta, observava papai de perto, ao lado do seu café melado depositado num copo de vidro vagabundo, sorvido com certo desleixo elegante nas ruas do centro de Fortaleza, quando eu perambulava com ele e tomava ao seu lado o cafezinho, me sentindo importante por dividir este ritual com aquele homem que fora meu pai, na ânsia de sorver além da bebida quente e doce, cada detalhe escancarado e oculto de sua presença humana, que eu de algum modo antevia que me faltaria em breve.
Passado o turbilhão sentimental, ansiei por conhecimento e fui bisbilhotar o café e agora vejam vocês, encontrei mais um motivo para amar Pernambuco: o cheiro e o gosto do arábica típica, descendente direto da primeira safra de café que chegou ao Brasil em 1727, cultivado cuidadosamente como uma gema preciosa, à sombra de jaqueiras, mangueiras, ingazeiras e quiçá ao som do pífano e da orquestra de frevo. Este pequeno infante trouxera de volta os cultivadores da terra que haviam migrado. Mas a terra pernambucana ficara o tempo todo lá, esperando pelo retorno deles, impregnada que estava dos frutinhos, que eram alimentados diariamente pela natureza: o magnetismo das rochas sob o solo, os arvoredos e sua sombra feérica em cujo silêncio trabalhavam fervorosamente pequenas sílfides doidinhas de café ou melhor dizendo, ligadonas de café.
Sabendo que seus bastardinhos abandonados agora são reis, os pais desajeitados colhem os frutinhos grão a grão e os depositam com todo o cuidado em sacas higienizadas para que sigam até o porto de Suape e de lá para o mundo.
Imagino que neste momento, sentados em sua ampla e bela varanda na Côte d’azur, repleta de Mediterrâneo, os meus amigos franceses podem estar tomando em alegre comunhão uma xícara do nosso arábica criado com a ajuda das sílfides que “deram uma força” pra mãe terra pernambucana que havia sido abandonada. Que vexame! Mas mãe é mãe e está sempre lá dando um jeito, mesmo na adversidade, nutrindo e amando os seus rebentos, para que eles cresçam fortes e belos e um dia se tornem reis.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

O Pires... Quebrou...

19:54 POR Carolina Rêgo Barros 1 COMENTÁRIOS
Esta semana teve terremoto no Haiti. Um país que já estava sangrando e a natureza se anuncia no seu aspecto mais violento. Matando, mutilando, ceifando. Na mesma semana a Hebe vai parar no hospital com um câncer raro no peritônio. Sorte da Hebe que tem a otimista Ana Maria Braga ligando pra ela todos os dias no meio das suas férias, fora do país.
Eu acredito na beleza da vida e é por isso que eu grito, me descabelo, reclamo, rôo todas as unhas (mas mando arrumar na outra semana, pois eu sou otimista!).O que eu não aguento é o otimismo acéfalo, aquele que passa a mão na cabeça porque gritar não resolve, espernear não resolve, dá murro na parede não resolve. Esse otimismo é tão cruel, porque quando o sujeito está triste e desconectado com o mundo, ele não tem vontade física de rezar o salmo 23. Fica cego mesmo, nem vê o terremoto que passou arrasando. É feito fome, dor de barriga, fica como criança pequena, que não quer sentir mais o que lhe faz tanto mal.
Aí é que entra o pires. Meia hora de recomendação e mesmo assim o pires quebra. Todo bonitinho, parte da coleção: quatro xícaras, quatro pratinhos de bolo, quatro pratos rasos, quatro pratos de sopa e... três pires! Todos coloridos com motivos florais. Pode parecer uma besteira, a mais indecente declaração de futilidade e desprezo ao semelhante, diante das chagas deste mundo de meu Deus. A médica missionária morta enquanto ajudava as criancinhas e o pires quebrado ganha corpo, forma, invadindo todos os buracos do pensamento.
Conheci uma menininha que nasceu feliz, como todas as menininhas nascem. E num dia sem importância, um pires idiota quebrou na sua mão. Não gostaram. Ela quis dizer alguma coisa, que fora um acidente. Não gostaram mais ainda. Daí pra quebrar outro pirezinho foi um pulo, ela não queria quebrar, mas eles pareciam debochar do seu medo e se suicidavam na sua frente, rindo e fazendo gracinhas obscenas durante seus derradeiros mortais acrobáticos. Obviamente por estarem na condição de pires, não tinham consciência da morte, tampouco de que se despedaçariam, transformando-se em cacos.
Os copos de geléia nunca quebravam, mas os pires, era só chegar um pouquinho mais perto que os danados se jogavam do nada, escorregavam da mão, das duas mãos sequinhas, das mãos segurando firme com o pano de prato atoalhado. Sempre, sempre, sempre. Virou febre, mas a menina não aguentava mais aquilo porque tinha um pessoal que protestava e não deixava ela crescer por causa disso: - "Você não pode crescer e virar uma mulher adulta, centrada, mãe de família, realizadora de projetos bem sucedidos, sua quebradora de pires!"
Um grito lancinante e aquele estrondo: copinhos, pratinhos, santa marias, swarovskis, cristalzinho disso, daquilo outro, no chão! Ouviram? Quão harmonioso pode ser o quebra- quebra de utensílios domésticos quebráveis, quebrados na hora e no momento certos!
Até hoje o pires lhe vem na sua lembrança. Para o caso do fenômeno se repetir em casa alheia, a menina, já crescida, deu pra colecionar pires sobressalentes em sepulcral segredo. Tem que ser igualzinho aquele que quebrou. Ninguém mais pode reclamar que ela lhes falta com o devido, pires!